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“Temos que integrar a expressão artística às necessidades das pessoas”

Tuesday, 24/07/2018 | 11:15 A arte, em particular o festival Stellenbosch, deve estar associada às necessidades das pessoas.

“Temos que integrar a expressão artística às necessidades das pessoas”

Esta é a percepção de Luís Magalhães, pianista português interessado em formar homens íntegros por via da música. Nesta entrevista, o artista a viver na África do Sul explica como a arte pode ser importante para um país.  

O que é feito do vosso festival?

No Stellenbosch fazemos mais ou menos o que o Xiquitsi faz em Maputo. A diferença é que nós temos mais anos de existência. Actualmente, atraímos cerca de 300 participantes alunos: sul-africanos, nigerianos, quenianos e marroquinos. Temos essa ideia de integração continental, que é importante para obtermos uma estrutura que abranja outros países e mais pessoas de outras culturas, o que só enriquece os nossos jovens a viverem na África do Sul.

Os jovens são a razão pelo qual existe o Festival Stellenbosch. Porquê?

A nossa ideia não é fazer concertos, mas educar por via dos concertos e orquestras. Penso que no contexto do hemisfério Sul, em África e na América Latina, temos que integrar a expressão musical e artística dentro das necessidades contemporâneas da nossa população, dos nossos alunos, dos nossos filhos. Dissociar a expressão artística da realidade do nosso país? Mais vale não estar a fazer nada, porque vamos continuar a ser vistos como projecto elitista ou do hemisfério Norte, quase que como os projectos coloniais.

Embaraços por detrás da realização deste tipo festivais?

A cultura é um bem essencial para qualquer sociedade. O que me deixa um bocado assustado, neste trabalho altruísta que temos desenvolvido com muita dedicação dos alunos, é ver que o investimento público privado nesta iniciativa não existe. Até o momento em que os nossos governantes perceberem que o capital cultural é muito mais importante que o capital monetário, vão encontrar um êxodo de população talentosa. O país vai sair a perder com isso, porque os músicos poderão encontrar oportunidades noutros países. Esse é o meu maior medo, os miúdos terem consciência dessa realidade ainda muito jovens. É difícil para uma criança ou adolescente compreender por que não há piano, um grão de areia no Orçamento do Estado, mas que faz toda a diferença para os alunos.

O que podemos ganhar, como país, se criamos condições para não faltarem pianos e outros instrumentos para os alunos de música?

O coeficiente emocional contribui para fazer de uma pessoa um profissional de excelência. Com este coeficiente, os alunos podem ser matemáticos exímios ou contabilistas fantásticos. Mas, sem este coeficiente emocional a economia não cresce. Nós temos de viver em conjunto, fazendo parte de uma comunidade, e o que une a comunidade em qualquer país é a cultura: a música, a gastronomia, a expressão plástica e a dança. A cultura e a expressão artística é a base de qualquer sociedade.

No caso de Moçambique, o Xiquitsi teve dificuldade de formação de público de música clássica. E na África do Sul?

Também foi difícil, mas em parte por nossa culpa. Por exemplo, na primeira edição do festival em Stellenbosch, digamos, tentamos ser iguais a nós próprios, como descendentes de europeus, com programação daquelas chatas: germânica, Áustria-húngara, com noite clássica, noite barroca e contemporânea. Toda a gente ia para noite clássica e a contemporânea ficava sem ninguém. Isso foi uma lição para nós. Disso, tomamos a decisão, no final da primeira edição, de não repetirmos repertório. Ao longo das 15 edições, nunca repetimos obras. São sempre diferentes, e assim vamos continuar até acabarem – espero que não acabem. Outra coisa, a inserção de músicas de diferentes épocas é feita de acordo com a ideia estética das obras, para também haver um conteúdo com textura. Isso contribuiu para atrairmos mais público e, felizmente, temos crescido muito. Durante os 10 dias de festival temos uma circulação de 12 mil pessoas, o que, para festival de música clássica, em qualquer parte do mundo, é muito bom.

O que lhe dá mais gozo, entre tocar e organizar festival de música clássica?

Em primeiro lugar, jogar futebol. Quando era mais jovem e tivesse que escolher, teria deixado o piano. Mas como não tenho muito jeito…

O que achas do projecto Xiquitsi?

Penso que a programação que a Kika faz é excelente. Logo, mais dia ou menos dia o Xiquitsi vai alcançar uma circulação enorme de pessoas. Inclusive, estamos cada vez mais interessados em estabelecer intercâmbios artísticos entre os nossos alunos na África do Sul e os do Xiquitsi, em Moçambique.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro os mosaicos de Naguib, na Marginal de Maputo.

PERFIL

Luís Magalhães é pianista português. Vive na África do Sul e tem actuado com frequência por toda a Europa, bem como em Moçambique, Zimbabwe, Brasil, China, Japão e Estados Unidos. É autor de quatro discos e é co-fundador do Stellenbosch International Chamber Music Festival, o qual se tornou desde 2004 o principal festival de música clássica em África. Magalhães tem recebido elogios da crítica internacional quer como solista quer como músico de câmara.

fonte: opais.sapo.mz

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