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Fundação Fernando Leite Couto propaga tributo Mia Couto e João Pedro Grabato

Friday, 27/07/2018 | 11:10 A Fundação Fernando Leite Couto promoveu um tributo a Mia Couto e a João Pedro Grabato Dias, numa noite que não faltou declamação de poesia e música.

 Fundação Fernando Leite Couto propaga tributo Mia Couto e João Pedro Grabato

Tratou-se de um momento único onde textos de ambos escritores estiveram e suas vidas “cruzaram-se” no mesmo palco e nos mesmos microfones.

“Vozes Anoitecidas: ecos de uma casa chamada tempo” foi como se denominou o tributo prestado a Mia Couto e João Pedro Grabato Dias na Fundação Leite Couto. A noite começou com uma poesia cantada de Mia Couto pela voz de Cídia Isabel e Armindo Cossa. O jardim estava pequeno demais para acolher a todos que queriam participar do tributo aos autores de “Terra Sonâmbula” e “Eu, o Povo”. Mia Couto é um escritor conhecidos por todos e que ocupa um espaço muito prestigiado nas letras nacionais. E João Pedro Grabato Dias é pouco conhecido e inserido na lista de poetas onde se encontram Rui Knopfli, Reinaldo Ferreira, Eugénio Lisboa e Sebastião Alba.

Perante o tributo, Mia Couto mostrou-se indiferente, como bem disse: “eu sinto-me um pouco atrapalhado porque não sou um grande adepto de homenagens e ainda por cima homenagens feitas nessa casa, a uma pessoa que é de casa. Acho que o importante na literatura são os livros; os autores não são tão importantes”. Modesto, como sempre, colocou os seus livros em frente da sua imagem. São os livros que merecem tributos e honras porque “os escritores vão e o que fica são as suas obras”. Se João Pedro Grabato Dias fosse vivo e estivesse na homenagem, talvez repetiria a sua célebre frase: “sou o único espectador deste teatro espantoso”.

Para o “Prémio Camões 2013”, a vida dos escritores só tem sentido quando interligada aos livros, “por que vale a pena conhecer a história de como alguém se transformou em escritor para se poder encorajar outros jovens que pensam que não são capazes. A Fundação assumiu essa função; é uma casa que se tornou uma fábrica de histórias; e cada um que vem aqui deve contar a sua história artística para estimular os mais jovens”. O mesmo autor destacou ser importante que os jovens cumpram por inteiro a vocação de ser jovem; pois ser jovem é uma vocação porque depende da idade, mas é uma atitude.

Quando convidado a falar sobre a poesia que os jovens produzem, Mia defendeu a ideia de que a poesia dentro da literatura é aquilo que tem mais força. “Considero a poesia um género natural em Moçambique. Somos, afinal, um país de poetas. E Craveirinha foi quem iniciou isso. Ele não era só poeta, era o pai da poesia em Moçambique. Somos um país ligado a poesia”.

O antropólogo Guilherme Mussane, que participou do tributo como declamador, preferiu sublinhar os traços similares fundamentais entre os dois autores. Mussane reafirmou o facto de ambos serem intelectuais da esquerda, terem dedicando-se a um estilo comum: ode, e por terem tido um contacto muito directo com o teatro. “São dois artistas, dois intelectuais. Mia é biólogo e sabemos que um dos livros famosos de Grabato versa sobre a biotecnologia e ambos assinaram textos com diversos heterónimos”.

“O tributo a esses dois escritores enquadra-se na programação mensal da Fundação Leite Couto que tem homenageado diversos autores. Esse tipo de tributo constitui uma forma de valorizar a produção literária nacional. A escolha de João Pedro Grabato Dias como um dos homenageados é uma forma de mostrar que a fundação não só dá valor a figuras reconhecíveis, mas também figuras que tiveram pouco divulgação e devido reconhecimento em vida” – justificou o editor Celso Muianga.

Mia Couto completou, no dia 5 de Julho, 63 anos de idade. E é um dos mais destacados escritores moçambicanos. António Augusto de Melo Lucena e Quadros nasceu a 9 de Julho de 1933 em Viseu. Assinou vários textos com os heterónimos de João Pedro Grabato Dias, António Quadros, Frey Loannes Garabatus e Mutimati Barnabé João. Faleceu a 2 de Julho de 1994; viveu em Moçambique durante 20 anos. Rui Knopfli chamou-o de “engenheiro de almas” pelas suas diversas ocupações: pintor, cenógrafo, professor de artes plásticas e de arquitetura, letrista musical, rigoroso arquitecto, apicultor, urbanista, jardineiro e pecuário.

fonte: opais.sapo.mz

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